terça-feira, 26 de maio de 2009

60. Pilar 5: Lucro (ESSBS21)

Lucro, s.m. Utilidade; vantagem; interesse; ganho líquido; proveito. (Do lat. lucru.)

Somos movidos pela vantagem pessoal e pelo lucro. Talvez esta característica esteja presente em muitos outros países, mas talvez em nenhum outro lugar do mundo há tamanha relação de amor com o lucro a ponto de retroalimentarmos todos os outros pilares (já foram discutidos a corrupção, a impunidade, os valores e a ignorância).

Nossas tão famosas e exportadas novelas mostram ao mundo todo o que nós somos, ou pelo menos reforçam tudo o que de ruim nós temos. Sempre há o vilão que faz tudo por dinheiro, a megerinha pronta pra dar o golpe da barriga no mocinho rico, a bruxa que faz as maiores maldades para conseguir o que quer: matar, roubar, enganar. Tudo acontece num cenário digno de Hollywood, em que até os pobres têm sempre comida na mesa, roupas da última moda e uma casa em que todos nós poderíamos morar tranquilamente, sem grandes dores de cabeça. Cenário que estampa em nossas caras que o que é legal é ter dinheiro. A novela não caminha se a ganância pelo poder não existe. E não é à toa que, ano vai, ano vem, os vilões fazem cada vez mais sucesso. O tempo em que a mocinha tapada e burra era a estrela já passou. Hoje em dia, mocinha que é mocinha sabe tirar vantagem da situação.

Tirar proveito é a lei que impera. Retornando à questão dos valores, hoje em dia vale muito mais uma pessoa que sabe tirar vantagem de qualquer situação, seja lá qual forem os meios de que se utilize, do que aquela pessoa que busca um bem comum, com humildade, respeito pelo próximo e solidariedade. Toda essa “bondade” tornou-se muito monótona, muito “sem emoção”. O brasileiro “esperto” e “malandro” dá muito mais ibope, não mencionando agora a televisão. Fazer da nossa vida um roteiro de filme em que alcançamos o ápice do poder e o interesse individual tornou-se muito mais interessante. Puxar o tapete dos outros para conseguir o que se quer tornou-se uma atitude louvável. Vingar-se dos outros que fizeram algum mal a você, também.

Até quando a busca desenfreada pela vantagem pessoal será considerada como algo bom?

domingo, 24 de maio de 2009

59. Uma pausa...

Ainda na questão dos valores, acho engraçado como certos pais hoje consideram que, tendo seus filhos na escola, toda sua parcela de educação foi transferida para os professores, diretores e orientadores educacionais. Isto se torna pior ainda quando a escola é particular, pois os mesmos pais dizem que “estão pagando pela educação de seus filhos” e querem o retorno do dinheiro que investem.

A educação é de responsabilidade integral dos pais, tanto dentro de casa quanto fora, na escola, acompanhando a vida do filho. Dias atrás, no telejornal mais assistido do país, foi mostrado o caso de um promotor de Mirassol que gerou várias intimações a mães de crianças que possuíam grande número de faltas às aulas, para que elas explicassem à justiça o que estava acontecendo. Um representante da OAB achou a medida um “exagero”... No espaço da internet do mesmo telejornal, pipocavam comentários das mais diversas partes do Brasil, a favor e contra a posição do promotor. Os que achavam a medida um “exagero” diziam que a culpa era do sistema educacional.

A inversão de valores a que eu me referi no último post está na cara, neste caso. A obrigação de educar os filhos é dos pais. Se o sistema educacional está do jeito que está, é porque aceitamos tudo sem contestar. Porque não somos “de briga”, queremos “paz”... Porque votamos sempre nas mesmas pessoas e somos corruptos.

O promotor de Mirassol foi talvez a pessoa mais lúcida que tenha surgido no Brasil nos últimos anos, por colocar os maiores culpados de toda essa história no devido lugar.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

58. Pilar 4: Ignorância (ESSBS21)

Ignorância, s. f. Falta de ciência ou saber; falta de instrução; estado de quem ignora. (Do lat. ignorantia.)

Somos cada vez mais ignorantes. Somos cada vez mais mantidos na ignorância. Alguns de nós não estamos nem minimamente interessados em saber sobre o que nos espera daqui pra frente, sobre o que está intimamente ligado com as nossas necessidades, sobre o que gera nosso desenvolvimento pessoal e como sociedade. Somos facilmente enganáveis. Valorizamos muito mais o que nos nutre momentânea do que permanentemente.

Já dizia George Orwell: “Ignorance is strength”. Ignorância é força. É engraçado como essa ideia controversa é verdadeira. Ficamos contentes com aquilo que nos dão, uma esmola, um serviço de saúde pífio, um sistema educacional falido... e aceitamos tudo isso sem pensar duas vezes. A nossa parcela de questionamento é nula. Tudo o que precisamos está ali, o governo nos dá, e tudo está bem. Graças a Deus, chegamos a mais um mês de vida.

A ignorância tornou-se um poderoso meio de manter as pessoas do jeito que estão, e de lá não saírem mais, pelo menos por um bom tempo. Basta alimentá-las e dar-lhes uns trocados por mês. Ao mesmo tempo, a qualidade da educação é inversamente proporcional ao número de famílias que comprovam que seus filhos estão na escola. Matriculados, pelo menos. Não há necessidade de acompanhamento algum de frequência ou desempenho nas aulas. Muito pelo contrário.

Anos vão, anos vêm, e o mecanismo da ignorância está sempre na moda. Ele é a garantia de que as massas exercem a “força do voto”, sob o medo de perder todos os benefícios que ganharam. Por outro lado, as classes mais abastadas estão mesmo interessadas em seu próprio nariz e não fazem absolutamente nada para reverter a situação. Afinal, até que manter a maioria das pessoas na ignorância tem suas vantagens.

A ignorância está alastrada, em todas as classes, em todas as casas, em todas as ruas, na favela ou nos condomínios fechados. Ignorância que nos faz cegos, que nos faz dar valor às coisas fúteis do mundo, que nos faz andar pelas ruas com a última moda em roupa, jóias, perfumes e carros enquanto tropeçamos em mendigos. Ignorância que nos faz pensar em como é bom ganhar as coisas de graça e como é ruim e dá preguiça aprender, estudar, trabalhar e conseguir sair da miséria – em todos os sentidos da palavra -, dando melhores condições às nossas famílias do que aquelas dadas “de graça”. Ignorância que nos faz um país de idiotas perante os poderosos fantasiados de “esperança”. Ignorância que não nos faz escutar os outros por “falta de tempo”. Ignorância de achar que, se todos podem, eu também posso. Ignorância que simplesmente nos rouba a capacidade de pensar e questionar. Ignorância que não nos faz ligar causa a consequência. Ignorância, pão e circo.

domingo, 17 de maio de 2009

57. Pilar 3: Valores (ESSBS21)

Valor, s.m. O que uma pessoa ou coisa vale; valia; mérito; préstimo; estimação; preço; preço elevado: comprou vários objetos de valor; qualidade daquele que tem força; valentia; esforço; coragem; mérito; resignação; paciência: ter valor na adversidade; papel representativo de dinheiro; significação exata de um termo; duração de uma nota musical. (Do lat. valore)

Nossos valores estão distorcidos. Não é de hoje que vemos e ouvimos coisas que, sem perceber, possuem grandes equívocos em sua essência. O que é certo? O que é errado?

Dizer não aos filhos está cada vez mais impossível. Talvez “impossível” não seja a palavra correta, mas sim “impraticável”. As crianças e adolescentes hoje possuem acesso a todo tipo de informação – em um clique, em um link, em somente uns minutos de programa de TV, em uma propaganda apelativa – e, com os dias cada vez mais corridos, às vezes não contam com uma mente experiente/presente para auxiliá-las a compreender os valores embutidos nessas informações. Os filhos possuem cada vez mais capacidade para questionar os pais. Os adultos de hoje já passaram também por essa revolução quando adolescentes e esta distorção de “certo” e “errado” é passada hoje, a seus filhos, numa velocidade muito maior.

Lembro que por muitas ocasiões, na escola, quando eu era criança, havia aulas em “pontes” de feriado – coisa que talvez já foi até abolida –, por determinação da escola e da prefeitura. Eu comparecia à escola com mais uns 6 ou 7 alunos. A aula não era dada por não haver 51% dos alunos nas classes. Os poucos alunos ficavam olhando para o teto ou eram dispensados. Na semana seguinte, ao perguntar aos colegas por que não tinham ido à escola, as respostas eram curiosas: “Ah, fui viajar com meus pais e não ia vir pra escola por causa de um dia”. “Ah, pra que? Não ia vir ninguém mesmo”. “Você é um otário!”. “Caramba, eu falei pra você não vir, né? Teve matéria?” “Era meu aniversário”.

Em meu prédio, crianças chegadas recentemente brincam todos os dias. A convenção do condomínio não permite, mas elas estão lá, sempre, até altas horas da noite. Questionada, a mãe diz que deixará os filhos lá até quando bem entender, pois eles são crianças e precisam de espaço para brincar. E ainda por cima, se acuada, chama o marido para defendê-la dos vizinhos carrascos e comedores-de-criancinhas, que trabalham no dia seguinte e acordam 5 horas da manhã.

Educar os filhos tornou-se muito mais um ato de protegê-los a qualquer custo de alguma situação controversa do que dizer-lhes “não” para que realmente aprendam. Talvez pelo fato de vivermos um país louco, sem bases, sem exemplos, sem conceito de “coisa pública”, com a violência e os crimes correndo soltos, os pais tornaram-se impotentes, fracos e prontos a dizer “sim”. A aceitar tudo o que é errado como certo, pela falsa felicidade e falso bem-estar dos filhos.

Sem considerar as relações pais/filhos – que, na verdade, são a raiz do problema –, valores distorcidos são repassados a todas as partes. De amigo pra amigo, de colega de trabalho para colega de trabalho... Certo é prazer, é esperteza, é ganhar. Errado é ter regras, é ir devagar, é partilhar.

Uma frase que entrou na moda há pouco tempo é a que diz “sou brasileiro e não desisto nunca”. Se você não desiste nunca, quais são os valores que considera para não desistir? Compensa mesmo não desistir?

domingo, 12 de abril de 2009

56. Pilar 2: Impunidade (ESSBS21)

Impunidade, s. f. Estado de impune; falta de castigo. (Do lat. impunitate)

Falta a nós todos noção de causa e consequência. Muitos de nossos atos são impensados e não medimos o quanto eles podem ser prejudiciais a outras pessoas. Conforme já foi exposto, não há exemplos a seguir. Todos nós estamos tomados por um falso sentimento de “extrema liberdade” para ir e vir, fazer e desfazer.

“Para cada ação, uma reação”, diz a Lei de Newton. Em nosso caso, contrariando a Física, não temos a reação. A cada dia, casos perturbadores e extremos desta “impressão de liberdade” de fazer e desfazer sem limites pipocam nos noticiários. Os códigos de leis sempre preveem um habeas-corpus, uma prisão domiciliar ou um cumprimento “em liberdade”... ou até umas poucas cestas básicas e serviços comunitários.

Não vemos a reação simplesmente porque a impunidade já é um conceito marcado na sociedade brasileira. Não há uma cultura de correção de conduta. Os presídios do Brasil acabam por incutir na cabeça de cada preso a raiva, o ódio e o rancor. Quem é criminoso e é preso tem maior probabilidade de virar bandido novamente assim que a grade for aberta: o sistema prisional não corrige, mas potencializa tudo de ruim que a pessoa já tem. Quem é criminoso e não é preso mostra uma medalha de vencedor, mostra à sociedade que o castigo não vale pra ele. Resumindo: Impunidade não é uma questão de "botar na cadeia". A impunidade existe dentro e fora dela. Dentro, não corrigindo o criminoso, e fora, não fazendo com que a pessoa entenda a consequência do que fez.

Outra falta de reação é singularmente a já destacada no primeiro pilar. A sociedade não responde a tudo o que ocorre de errado basicamente porque sequer sabe como agir. Diante da crueldade pela crueldade ou da ganância pela ganância, existe revolta, comoção, indignação, desejo de justiça, cruzes na areia de uma praia, mas nada além disso.

Sendo assim, pela impunidade generalizada, as pessoas perdem a ideia de que seus atos podem gerar consequências graves a outras pessoas. A sensação de ficar impune e de ter um campo de força contra qualquer ameaça aos seus próprios objetivos é perigosa e crescente na sociedade brasileira. A impunidade – neste caso, a falta de castigo em todos os sentidos, seja por matar, por roubar, por jogar papel no chão, por beber e dirigir – retroalimenta nosso primeiro pilar, a corrupção, nos tornando cada vez mais vulneráveis à troca de valores.